A FÉ, A CRENÇA, AS AGRURAS DA PROFISSÃO E A RESISTÊNCIA DO VERDADEIRO ADVOGADO

“O verdadeiro advogado, que não será sempre um gênio, como o foi Clarence Darrow – o maior advogado criminal norte-americano de todos os tempos – é e será, eternamente, mais feliz. Sobreviverá, ainda que com inauditos esforços. Acordará, um dia, de seu sonho e de seu pesadelo, sem que pereça a fé nos seus semelhantes, a sua crença na Justiça e o seu amor à mais bela e caridosa de todas as profissões: a advocacia.

 

É evidente que todos esses lidadores do direito não olvidarão, jamais, o amargo sabor da injustiça e das humilhações sofridas, que tanto exultam o coração dos maus e  confortam a alma do mercenário. Não esquecerão nunca a Justiça que tardou demais, pois já alguém dissera, alhures, que ‘a Justiça que tarda não é Justiça, é injustiça...'

 

Poderão vender os seus amados livros e ter certeza de que nada mais terão a ver com o Direito, entretanto, mais cedo ou mais tarde, como o filho pródigo, retornarão ao lar paterno: aos tribunais, às salas de audiências, à tribuna, ao debate, aos seus processos e arrazoados, ao convívio forense dos bons.

 

Voltaram no passado e hão de voltar sempre à sua estacada – trincheira infindável de combates que enobrecem o homem e santificam o advogado.

 

Voltarão mais sofridos, mais tristes, mais sós, mas, ao mesmo tempo retemperados e fortalecidos pela imerecida insídia que a alma recebeu plena de coragem.

 

E, milagrosamente, recomeçarão, com a energia de sempre, a luta que só termina com a morte.

 

Foi certamente meditando sobre todas as agruras da advocacia que Piero Calamandrei traçou estas linhas: ‘Seria útil intercalar entre as várias provas, que os candidatos à advocacia devem prestar para serem dignos de exercer a profissão, uma prova de resistência nervosa, semelhante àquela a que se sujeitam os aspirantes a aviadores’.

 

Outra, mais recentemente, não parece ter sido a intenção de F. Lee Bailey, que é também um veterano piloto, ao escrever no começo, no meio e no fim do seu famoso livro estas frases esparsas que dispensam comentários: ‘Se eu dirigisse uma escola para criminalistas, ensinaria todos eles a voar. Eu  os faria levantar voo quando o tempo estivesse ruim, quando os aviões não estivessem em bom estado, e quando os pássaros estivessem caminhando no chão. Aqueles que escapassem com vida iriam aprender o significado da palavra ‘sozinho’ (...) como acontece com um homem errante, o advogado de defesa é um alvo constante (...) ‘Há mais outra coisa: o pretenso criminalista deveria ficar ciente da solidão da profissão que escolheu. E das satisfações de ser um renegado (...).'

 

Há uma verdade irrefragável que deve ser, mais uma vez, proclamada: piloto ou não, solitário ou não, supondo-se ou não um renegado, pouco importa, o essencial é que o advogado, sempre zeloso no cultivo dos preceitos éticos de sua profissão e de sua consciência, não se acovarde, jamais, sempre que for necessário levar aos atribulados que carecem de amparo a sua boa vontade, a sua ciência e, principalmente, o seu destemor, a sua coragem que, inegavelmente, como apregoava John Kennedy, é ‘a mais rara de todas as virtudes humanas.'

 

Sejam quais forem as armadilhas e os ódios, as perseguições e as vilanias, um dia voltarão para a sua oficina de trabalho, donde nunca se desprenderam as raízes profundas de sua fé.”

 

Da prisão em flagrante, de Tales castelo Branco. Ed: Saraiva, 4. ed. 1988, p. 217-219

 

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